Otosclerose Dr. Luciano Moreira · Equipe SONORA

2 — Diagnóstico

Tomografia na otosclerose, quando fazer e o laudo

Resposta rápida

A tomografia de alta resolução dos ossos temporais é o exame de imagem de escolha na otosclerose, mas nem sempre é obrigatória para o diagnóstico, que é clínico e audiológico [1]. Ela serve para confirmar a doença, medir a extensão dos focos, planejar a cirurgia e afastar outras causas, e precisa de um protocolo específico, com cortes finos, não de uma tomografia comum de crânio [1]. O ponto mais importante é que um laudo de rotina muitas vezes não descreve os focos da otosclerose, mesmo quando eles estão visíveis nas imagens [3]. Por isso vale a tomografia ser relida pelo cirurgião.

Quando a tomografia entra e o que ela mostra

A tomografia não é o primeiro passo do diagnóstico. O diagnóstico da otosclerose se monta antes dela, com a história clínica, a audiometria e a imitanciometria, e a imagem entra para confirmar o que esses exames já sugerem, medir a extensão da doença, planejar a cirurgia e afastar outras causas de perda auditiva [1]. Quando há indicação de cirurgia do estribo, a tomografia de alta resolução dos ossos temporais é o exame de imagem de escolha, porque mostra ao cirurgião a anatomia das janelas, a situação da platina e a extensão dos focos antes de operar, o que faz parte do planejamento de qualquer estapedotomia [1]. Veja como os exames se encaixam na página sobre como se diagnostica a otosclerose.

Feita com alta resolução, a tomografia mostra os focos da otosclerose como pequenas áreas de osso menos denso, em geral logo à frente da janela oval, numa região chamada fissula ante fenestram [1]. É ali que a doença costuma começar, e mesmo focos pequenos, de cerca de 1 milímetro, já podem ser identificados, desde que o exame tenha resolução suficiente [1]. Quando a doença avança ao redor da cóclea, a chamada otosclerose coclear, a tomografia pode mostrar uma faixa de menor densidade contornando a cóclea, descrita como sinal do halo [2], também conhecida como duplo anel ou quarto anel de Valvassori [1]. São achados sugestivos, não exclusivos, da doença, e ajudam a medir até onde ela chegou.

[imagem-quadro 3 fases (osso normal / otospongiose localizada / otosclerose coclear) — a inserir na construção do site]

O exame certo e os graus que ele descreve

Não serve qualquer tomografia. O exame indicado é a tomografia de alta resolução dos ossos temporais, com cortes muito finos, de cerca de 1 milímetro ou menos [1]. Uma tomografia comum de crânio ou de seios da face, com cortes mais grossos, não tem a definição necessária para mostrar focos tão pequenos. O protocolo dedicado, com cortes finos e reconstruções nos planos certos, é parte do que permite enxergar a otosclerose [1]. Quando o pedido ou a técnica não são os adequados, a doença pode simplesmente não aparecer, ainda que esteja lá.

Com o exame certo em mãos, a extensão da otosclerose costuma ser descrita pela classificação de Symons-Fanning, que vai do grau 1, limitado à região da janela, ao grau 3, com envolvimento difuso ao redor da cóclea [1]. Ela é útil para planejar a conduta e para conversar sobre prognóstico.

Grau Localização O que a tomografia mostra
1 Fenestral exclusiva Foco na fissula ante fenestram (logo à frente da janela oval); espessamento da platina do estribo; estreitamento ou obliteração das janelas.
2A Coclear focal, giro basal (± fenestral) Focos ao redor da cóclea limitados ao giro basal.
2B Coclear focal, giros médio/apical (± fenestral) Focos ao redor da cóclea nos giros médio e/ou apical.
2C Coclear focal, basal + médio/apical (± fenestral) Focos ao redor da cóclea em todos os giros.
3 Coclear difusa confluente (± fenestral) Envolvimento extenso e confluente ao redor de toda a cóclea.

A forma fenestral (grau 1), com a doença concentrada na região da janela oval, é a apresentação mais comum da otosclerose [1]. Os graus mais altos indicam que a doença se estendeu para perto da cóclea, o que tem peso no planejamento e na conversa sobre o que esperar.

Por que um laudo normal não exclui a doença

Esse é um dos pontos mais delicados do diagnóstico por imagem [3]. Uma tomografia laudada como normal não exclui a otosclerose. Um estudo que revisou tomografias de pacientes com a doença encontrou os focos não descritos em quase metade dos exames em que eles estavam presentes, e a detecção subiu de cerca de um terço, numa leitura geral, para mais de 80% quando o exame foi relido por quem procura especificamente os focos da otosclerose [3]. Há ainda uma razão física para o falso-negativo, porque na fase mais densa da forma fenestral o foco pode não deixar um contorno ósseo evidente, e passa despercebido [1].

Por isso, quando a clínica e a audiometria apontam para a otosclerose mas o laudo da imagem não a menciona, o caminho não é descartar o diagnóstico, e sim reavaliar as imagens com cuidado. Quando o seu laudo não bate com a sua história, ou quando o diagnóstico mudou de um médico para outro, entender o porquê é o primeiro passo. É disso que trata a página sobre diagnóstico errado e segunda opinião.

Tomografia ou ressonância, qual mostra a otosclerose

Para a otosclerose, o exame de imagem principal é a tomografia, não a ressonância [1]. A tomografia é quem mostra o osso, os focos da doença, a anatomia das janelas e o grau de calcificação ao redor da cóclea, e é por isso que ela guia a cirurgia do estribo [1]. A ressonância tem um papel complementar e mais específico, usada sobretudo quando se avalia a indicação de um implante coclear, para checar se a cóclea está pérvia (sem o líquido obstruído por ossificação ou fibrose) e para avaliar o nervo auditivo [1]. Nesse cenário, em que a cóclea pode estar parcialmente ossificada ou fibrosada, tomografia e ressonância se completam (veja a página sobre otosclerose avançada e implante coclear).

Vale um esclarecimento que aparece muito. Há quem ouça, depois de fazer uma ressonância, que "não era otosclerose". Acontece que a ressonância não é o exame que mostra os focos da otosclerose no osso, quem faz isso é a tomografia de alta resolução. Um achado de ressonância, sozinho, não é a palavra final sobre a doença.

Chamada

Se você já tem uma tomografia e quer entender o que ela realmente mostra, ou se o seu laudo não fecha com a sua história, é possível revisar as imagens numa consulta on-line. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.


Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25)

  1. Purohit B, Hermans R, Op de beeck K. Imaging in otosclerosis: a pictorial review. Insights Imaging. 2014;5(2):245-52. PMC3999364 · (apoio) Lee TC, Aviv RI, Chen JM, et al. CT grading of otosclerosis. AJNR Am J Neuroradiol. 2009;30(7):1435-9. PMID 19321627
  2. Hohman MH, Khan MAB. Otosclerosis. StatPearls, 2024. NBK560671
  3. Bassiouni M, Bauknecht HC, Muench G, et al. Missed Radiological Diagnosis of Otosclerosis in HRCT of the Temporal Bone. J Clin Med. 2023;12(2):630. PMC9860545
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