Otosclerose Dr. Luciano Moreira · Equipe SONORA

2 — Diagnóstico

Diagnóstico da otosclerose, os exames que confirmam

Resposta rápida

O diagnóstico da otosclerose não depende de um único exame. Ele se constrói juntando a sua história, o exame do ouvido e exames de audição que se completam, a audiometria (que mostra a perda condutiva e o gap aéreo-ósseo), a imitanciometria (timpanograma e reflexos) e, quando é preciso confirmar ou planejar a cirurgia, a tomografia de alta resolução dos ossos temporais. A audiometria sozinha levanta uma forte suspeita; é a combinação dos achados que fecha o caminho. E vale investigar mesmo quando a perda já dura muitos anos, porque o componente condutivo da otosclerose pode ser corrigido com a cirurgia.

Quando suspeitar de otosclerose

A suspeita aparece quando a audição cai de forma lenta e progressiva num adulto jovem, em geral entre os 20 e os 40 anos, muitas vezes com zumbido e com história de perda auditiva na família [1]. A perda costuma atingir os dois ouvidos na maior parte dos casos, e começa devagar, o que faz com que muita gente demore a perceber. Mais da metade dos pacientes, algo em torno de 50% a 60%, tem outros casos na família, e a doença é cerca de duas vezes mais frequente em mulheres [1].

Esses dados, o início num adulto jovem, a história na família e o predomínio em mulheres, não fecham o diagnóstico sozinhos, mas são pistas que indicam o caminho da investigação. O ponto a guardar é que a otosclerose típica é uma perda condutiva, ou seja, mecânica. É isso que os exames a seguir mostram. E quem confirma esse caminho é o otorrinolaringologista, com mais segurança quando tem prática em otologia e na cirurgia da otosclerose, porque é essa experiência que liga os achados da audiometria, da imitanciometria e da imagem.

Um diagnóstico que se monta por peças, não por um teste isolado

O diagnóstico é clínico e se confirma com exames, não com um teste isolado [1]. Começa pela conversa sobre a história da perda, o zumbido, a tontura e os casos na família, passa pelo exame do ouvido com o otoscópio e se apoia em dois exames de audição que se completam, a audiometria e a imitanciometria. A tomografia entra quando é preciso confirmar a imagem da doença ou planejar a cirurgia. Cada peça mostra uma parte; juntas, elas desenham um padrão que é muito sugestivo de otosclerose. Por isso nenhum exame, isolado, basta, e é a leitura do conjunto que dá segurança.

O que o otorrino vê no exame do ouvido

Na maioria dos casos a otoscopia é normal, ou seja, o tímpano tem aparência comum, e isso não afasta a otosclerose [1]. A doença fica numa região do osso que não aparece pelo otoscópio, por isso um ouvido de aparência saudável é, na verdade, o achado esperado. Em outras palavras, uma otoscopia normal não exclui a otosclerose.

Em parte das pessoas, na fase ativa da doença, dá para ver através do tímpano uma coloração rósea ou avermelhada sobre o promontório, perto da cóclea. É o sinal de Schwartze, ligado ao aumento de vascularização dos focos ativos [1]. A literatura clássica descreve esse sinal em cerca de 10% dos casos, e ele é inconsistente, não sendo necessário para o diagnóstico [1].

O diapasão completa esse exame. Ele ajuda a confirmar que a perda é condutiva. No teste de Weber o som costuma lateralizar para o ouvido que ouve pior, e no teste de Rinne, quando a perda condutiva já passa de cerca de 30 decibéis, a vibração é sentida melhor pelo osso do que pelo ar [1][2]. Em perdas ainda leves esses testes podem não chamar atenção, e é por isso que eles orientam, mas não substituem a audiometria.

A assinatura da otosclerose na audiometria

A audiometria é o exame que dá a assinatura da otosclerose, uma perda auditiva condutiva com gap aéreo-ósseo [2]. O gap é a diferença entre o quanto a pessoa ouve pelo ar (o som que entra pelo canal e move o tímpano e os ossículos) e o quanto ouve pelo osso (a vibração aplicada direto no crânio). Quando o estribo está travado, o som pelo ar chega abafado, enquanto o som pelo osso passa quase normal. Essa distância entre as duas curvas é o gap [2].

É essa diferença que responde a uma dúvida muito comum, a de que a perda seria "do nervo". Na otosclerose típica o ouvido interno funciona, e o que está travado é a transmissão mecânica do som pelo estribo, justamente o componente condutivo que a cirurgia do estribo pode corrigir. Vale o esclarecimento, a perda que não é condutiva chama-se neurossensorial, e a sua origem mais comum está na cóclea, não no nervo. Numa perda neurossensorial, como a da idade, as duas curvas caem juntas e não há gap, e a audiometria ajuda a separar um caso do outro [2].

Há ainda um detalhe característico, o entalhe de Carhart, uma queda aparente da via óssea em torno de 2000 Hz [2]. Ele não é uma lesão real da cóclea, e sim um efeito mecânico, tanto que tende a desaparecer depois de uma cirurgia do estribo bem-sucedida [2]. Por isso é descrito como um sinal sugestivo de otosclerose, não como uma prova exclusiva.

Vale um alerta importante. A audiometria depende muito de como é feita, e um mascaramento mal feito pode mostrar um gap que não existe ou esconder um que existe, um problema comum na otosclerose. É um dos erros que mais atrapalham o diagnóstico, e por isso ele tem espaço próprio na página sobre diagnóstico errado e segunda opinião.

Por que a audiometria sozinha não fecha o diagnóstico

A audiometria sozinha levanta a suspeita, mas não fecha o diagnóstico [2]. Ela mostra a perda condutiva, e a imitanciometria explica o porquê. Esse exame tem duas partes. A timpanometria, que costuma dar uma curva normal (tipo A) ou de pouca mobilidade (tipo As), refletindo a rigidez da cadeia de ossículos. E a pesquisa dos reflexos estapédicos, que tendem a ficar ausentes ou alterados justamente porque o estribo travado não consegue se mover [2].

A combinação de perda condutiva na audiometria, timpanograma tipo A ou As e reflexos ausentes é altamente sugestiva de otosclerose [2]. Ainda assim, há uma ressalva. No início da doença a timpanometria e os reflexos ainda podem estar normais, e o reflexo costuma desaparecer só depois de anos de evolução [2]. Ou seja, um reflexo presente não descarta a otosclerose, assim como uma otoscopia normal não a descarta. É a leitura do conjunto, e não de um exame isolado, que dá segurança ao diagnóstico.

Quando a tomografia entra, e quando não é preciso

A tomografia não é obrigatória para suspeitar de otosclerose, que é um diagnóstico clínico e audiológico, mas é o exame de imagem de escolha para confirmar a doença, medir a sua extensão, planejar a cirurgia e afastar outras causas de perda auditiva [3]. Ela tem suas próprias regras, do protocolo correto ao cuidado com a leitura do laudo, e por isso ganhou uma página dedicada. Veja a tomografia na otosclerose, quando fazer e por que o laudo costuma falhar. E nem sempre é preciso refazer tudo do zero. Muitas vezes a audiometria e a tomografia que você já tem bastam para uma primeira leitura, e dá para orientar com clareza o que vale a pena repetir quando algo está incompleto.

Vale investigar mesmo anos depois

Sim, vale investigar mesmo que a perda já dure muitos anos. Não importa há quanto tempo a audição vem caindo, a pergunta que muda a conduta é sempre a mesma, existe ou não um componente condutivo. Se existe, ele pode ser corrigido com a cirurgia, independentemente da idade ou de quanto tempo se passou. Por isso uma audiometria com imitanciometria continua valendo a pena décadas depois do primeiro sintoma.

Aqui também cabe desfazer uma confusão de nome. Otosclerose não é "esclerose" no sentido de esclerose múltipla, que é uma doença neurológica completamente diferente. É uma doença do osso ao redor do ouvido interno, que trava o estribo [1]. Quando alguém ouve, ao longo dos anos, que a perda seria "do nervo", que "não há o que fazer" ou que "é esclerose", muitas vezes o que faltou foi separar a parte condutiva da neurossensorial com os exames certos. E não é raro o diagnóstico mudar de um médico para outro. Quando isso acontece, vale entender por que aconteceu, e é disso que trata a página sobre diagnóstico errado e segunda opinião.

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Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25)

  1. Hohman MH, Khan MAB. Otosclerosis. StatPearls, 2024. NBK560671
  2. Toscano ML, Matz O, Hohman MH, Shermetaro C. Stapes Surgery for Otosclerosis. StatPearls, 2026. NBK562205 · Forli F, Capobianco S, De Vito A, Bruschini L, Lazzerini F. Issues in the audiological assessment of otosclerosis. Acta Otorhinolaryngol Ital. 2025;45(3 Suppl 1):S40-S48. PMID 40534441
  3. Purohit B, Hermans R, Op de beeck K. Imaging in otosclerosis: a pictorial review. Insights Imaging. 2014;5(2):245-52. PMC3999364

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