4 — A cirurgia
Estapedectomia, a cirurgia da otosclerose explicada
Resposta rápida
A cirurgia da otosclerose, conhecida há décadas como estapedectomia, trata o estribo que ficou travado pela doença. Hoje a técnica mais usada é a estapedotomia, em que se faz uma pequena abertura na platina do estribo e se coloca uma prótese ligada à bigorna, no lugar de remover toda a base do osso [1][2]. É um procedimento feito por dentro do canal do ouvido, sem corte externo, sob anestesia local com sedação ou anestesia geral [1]. A literatura descreve fechamento do gap aéreo-ósseo em cerca de 90% dos casos primários, com risco de perda neurossensorial abaixo de 1% [1]. Esses números descrevem o conjunto de pacientes nos estudos, e não uma promessa de resultado para cada caso.
O que a cirurgia resolve e como é feita, passo a passo
A cirurgia resolve a parte mecânica da perda auditiva, o estribo travado. Na otosclerose, o osso ao redor da janela oval cresce de forma anormal e prende o estribo, o menor osso do corpo, que deixa de transmitir o som para o ouvido interno [1]. A cirurgia substitui esse osso travado por uma prótese que volta a conduzir a vibração até a cóclea. É o componente condutivo da perda, aquele que aparece como gap aéreo-ósseo na audiometria, que a cirurgia busca tratar. Veja como esse gap é identificado na página sobre como se diagnostica a otosclerose.
Na prática, tudo acontece por dentro do canal do ouvido, com o microscópio ou o endoscópio, sem corte por fora. O acesso é transcanal, com uma pequena incisão próxima ao tímpano e o levantamento de um retalho (o retalho timpanomeatal), que é dobrado para a frente e expõe o ouvido médio [1]. A seguir, a parte superior do estribo (a superestrutura) é separada da bigorna e removida [1]. Na platina, a base do estribo, faz-se uma pequena abertura, a platinotomia, utilizando uma microbroca [1]. Por fim, mede-se a distância da platina até o topo da bigorna e coloca-se a prótese, que se prende à bigorna e alcança o ouvido interno pela abertura criada [1]. O retalho é reposicionado e o ouvido cicatriza por dentro.
[imagem cirurgia + esquema da prótese no lugar do estribo — a inserir na construção do site]
Estapedotomia ou estapedectomia, a diferença entre as duas técnicas
A estapedotomia é a técnica moderna preferida hoje, e a estapedectomia é a forma mais antiga, usada com menos frequência [1]. A diferença está no quanto se mexe na platina do estribo. Na estapedectomia, a base do estribo é removida por inteiro, ou em grande parte, e a abertura é coberta por um enxerto de tecido. Na estapedotomia, faz-se apenas uma pequena abertura na platina (a chamada small fenestra) e por ela passa a prótese, preservando o resto do osso [1].
A literatura aponta que a estapedotomia oferece maior ganho nas frequências agudas e pode ter menor índice de complicações, e que a vertigem no pós-operatório costuma durar menos depois dela [1][2]. Por isso ela se tornou a abordagem habitual. Ainda assim, a experiência do cirurgião pesa mais no resultado e na segurança do que a técnica escolhida em si [1]. Muitos pacientes procuram pelo nome antigo, estapedectomia, mas na prática atual o que costuma ser feito é a estapedotomia.
A prótese que entra no lugar do estribo
A prótese substitui a função do estribo, levando a vibração do som da bigorna até o ouvido interno. Existem modelos com materiais e formas de fixação diferentes, e os estudos não mostram um material superior a outro quanto ao resultado auditivo [2]. O Teflon (também chamado PTFE ou fluoroplástico) foi o material da primeira estapedectomia bem-sucedida, em 1956, e segue em uso até hoje [1].
Uma dúvida frequente é se a prótese serve para ressonância magnética. A maioria das próteses modernas de estribo é segura para a ressonância, não representa risco dentro dos aparelhos atuais [3]. Existe um detalhe histórico, um pequeno grupo de pacientes recebeu, nos anos 1980, uma prótese de aço que foi recolhida e está fora de uso desde 1987, e por precaução esses casos antigos devem preferir o aparelho de 1,5 tesla [3]. Por isso é boa prática guardar o documento ou o cartão da sua prótese e informar a equipe da ressonância antes do exame. Esse ponto está detalhado na página sobre o pós-operatório da cirurgia.
O que esperar do resultado, e por que ele pode mudar com o tempo
A literatura descreve fechamento bem-sucedido do gap aéreo-ósseo em cerca de 90% dos casos primários, com o objetivo de reduzir esse gap para 10 decibéis ou menos [1]. O risco de perda neurossensorial, que a cirurgia do estribo não corrige, fica abaixo de 1% [1]. Nas cirurgias de revisão, quando é preciso operar de novo, o fechamento do gap cai para cerca de 70% [1].
É importante entender o que esses números são e o que não são. Eles descrevem o conjunto de pacientes nos estudos, não uma promessa de que o seu ouvido vai responder exatamente assim. O resultado de cada caso depende da anatomia, da extensão da doença e da reserva auditiva que a pessoa tem antes de operar. A conversa sobre o que esperar, e sobre os riscos, é parte da decisão. Veja os riscos e os medos da cirurgia do estribo.
Há também a questão de quanto esse resultado dura, uma das perguntas que mais recebo, sobretudo de quem já operou os dois ouvidos e teme que a perda volte. A cirurgia trata o estribo travado, mas não interrompe a otosclerose, que é uma doença progressiva [1]. Mesmo com a prótese bem posicionada e a cirurgia bem feita, a audição pode voltar a cair com o tempo, por dois caminhos diferentes. Um é a própria progressão da otosclerose, que pode avançar e atingir a parte do ouvido interno, a porção neurossensorial, que a cirurgia não corrige [1]. O outro é a perda auditiva natural da idade, que se soma ao quadro ao longo dos anos como aconteceria com qualquer pessoa. A prótese não tem um "prazo de validade" no sentido de estragar sozinha, mas o resultado auditivo pode mudar ao longo da vida, porque a audição não depende só do estribo. Quando isso acontece, há caminhos, da reavaliação a uma eventual cirurgia de revisão, e o aparelho auditivo continua sendo uma alternativa viável [1]. Vale notar que operar não congela a audição no tempo, ela trata o componente mecânico no momento em que ele está travado. {#durabilidade}
A anestesia, o tempo de cirurgia e a internação
A cirurgia pode ser feita sob anestesia local com sedação ou sob anestesia geral, e cada opção tem suas vantagens [1]. A anestesia local permite que o paciente se comunique durante o procedimento, o que ajuda a monitorar uma eventual tontura no momento de posicionar a prótese [1]. A anestesia geral, por sua vez, evita o desconforto do barulho da microbroca trabalhando sobre a platina [1]. A escolha é feita junto com o paciente e a equipe de anestesia, considerando o caso e a preferência de cada um.
Quanto ao tempo, a cirurgia do estribo é um procedimento relativamente curto e localizado, feito por dentro do canal do ouvido. As condições do procedimento, o tempo de permanência e a necessidade de internação são definidos caso a caso, conforme a avaliação clínica e a rotina do hospital. Por isso prefiro acertar esses detalhes na consulta, com calma, em vez de cravar um número que não vale para todo paciente. A orientação para o que vem depois está na página sobre o pós-operatório da cirurgia da otosclerose.
Operar um ouvido de cada vez
Quando os dois ouvidos têm indicação, não se opera os dois de uma vez. Opera-se primeiro aquele que o paciente percebe como pior, e o outro pode ser avaliado meses depois, em geral a partir de cerca de 6 meses, caso tenha passado a ser o de pior audição [1]. Operar um ouvido de cada vez é uma questão de segurança, dá tempo de avaliar o resultado e a recuperação antes de pensar no segundo lado.
Chamada
Se você foi diagnosticado com otosclerose e quer entender se a cirurgia é o caminho para o seu caso, ou ouvir uma segunda opinião antes de decidir, é possível revisar a sua audiometria e a sua tomografia numa consulta on-line. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.
Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25)
- Toscano ML, Matz O, Hohman MH, Shermetaro C. Stapes Surgery for Otosclerosis. StatPearls, 2026. NBK562205
- Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, et al. Brazilian Society of Otology task force — Otosclerosis: evaluation and treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(5):101303. PMC10474207
- Daher GS, Kocharyan A, Carlson ML, et al. MRI Safety of Stapes Prostheses: A Systematic Review. Otol Neurotol. 2024;45(5):469-474. PMID 38518765