5 — Pós-operatório
Pós-operatório da cirurgia de otosclerose, os cuidados
Resposta rápida
O pós-operatório da cirurgia do estribo costuma transcorrer sem grandes intercorrências, mas a audição não se firma de uma vez. Nas primeiras semanas o ouvido fica tampado por causa do curativo interno e do inchaço normal da cicatrização, e a percepção da melhora vem aos poucos, ao longo de semanas a meses. Nesse período valem alguns cuidados simples, não molhar o ouvido operado, não assoar o nariz com força, espirrar de boca aberta e evitar esforço pesado. Voar de avião, depois de uma estapedotomia, é seguro mesmo cedo, desde que o ouvido destampe normalmente [1]. As próteses modernas de estribo são seguras para ressonância magnética [2]. Vertigem intensa e persistente, piora súbita da audição, febre, secreção com mau cheiro ou fraqueza no rosto pedem retorno imediato.
A recuperação acontece em fases, e a audição é a parte que mais demora
A recuperação acontece em etapas, e a audição é a parte que mais demora a se firmar. Nas primeiras semanas o ouvido operado costuma ficar tampado, abafado, por causa do curativo interno (o tamponamento) e do inchaço natural da cicatrização. Isso não é sinal de que a cirurgia não funcionou, é o esperado nesse momento.
A volta às atividades leves do dia a dia em geral é rápida, mas o ganho de audição costuma se estabilizar ao longo de semanas a meses, à medida que o ouvido desincha e o curativo é reabsorvido ou retirado. Por isso evito tirar conclusões sobre o resultado nas primeiras consultas. A audiometria de controle, feita já com o ouvido recuperado, é quem mostra de fato como ficou a transmissão do som.
Vale separar duas coisas para ter uma expectativa realista. A cirurgia do estribo trata o componente condutivo da perda, a parte mecânica, em que o som chega abafado porque o estribo estava travado. O componente neurossensorial da otosclerose, a parte ligada à cóclea, não responde à cirurgia [3]. Por isso, em quem tem os dois componentes, a audição melhora na parte que era mecânica, e a parte neurossensorial segue o seu próprio curso. Entender essa diferença é um dos pontos que converso antes de operar (veja a página sobre a cirurgia da otosclerose).
Repouso, afastamento e a volta ao esforço físico
Não há um número único de dias de repouso que sirva para todo mundo, porque depende do tipo de trabalho e da recuperação de cada pessoa. De modo geral, o repouso mais rigoroso é dos primeiros dias, e as atividades leves voltam logo. O que pesa de verdade é evitar esforço físico intenso e variações bruscas de pressão no ouvido por algumas semanas, e não ficar parado na cama.
Quem tem um trabalho de escritório, sem esforço físico, costuma retomar antes do que quem faz trabalho braçal, pega peso ou se expõe a ruído. Por isso o tempo de afastamento é combinado caso a caso, na consulta, levando em conta a sua atividade. Essa orientação faz parte do bom senso da recuperação para não deslocar a prótese recém-colocada, e não de uma regra fixa de calendário.
A mesma lógica vale para o exercício. Atividades leves voltam cedo, mas esforço físico intenso, pegar peso e exercícios que aumentam muito a pressão dentro da cabeça devem esperar algumas semanas, pela mesma razão de não assoar o nariz com força, evitar qualquer coisa que jogue pressão para dentro do ouvido enquanto a prótese ainda está se acomodando e a região cicatriza. Não existe uma diretriz rígida, com um número de dias válido para todos, sobre quando voltar à academia ou à corrida. Por isso oriento o retorno de forma gradual e individual, começando pelo mais leve e aumentando conforme a recuperação. Mergulho, em especial, fica para depois da liberação. Combinamos esse retorno na consulta de controle, de acordo com a sua atividade e com como o ouvido está respondendo.
Os cuidados das primeiras semanas, manter o ouvido seco e proteger a prótese
Enquanto o ouvido cicatriza, não convém molhar o ouvido operado nas primeiras semanas. Água entrando no canal pode contaminar a região operada e atrapalhar a cicatrização, então oriento manter o ouvido seco até a liberação na consulta de controle. No banho, costumo recomendar proteger a entrada do ouvido com um algodão embebido em um pouco de vaselina, sem empurrar nada para dentro do canal.
Além de manter o ouvido seco, há outros cuidados simples que valem nesse período. Não assoar o nariz com força, porque o ar empurrado para cima pode chegar ao ouvido e mexer na prótese. Se precisar espirrar, fazer de boca aberta, para aliviar a pressão. E evitar esforço físico pesado, pegar peso e mergulhar nas primeiras semanas. São cuidados de bom senso, voltados a proteger a prótese recém-colocada enquanto tudo cicatriza.
Voar de avião depois da cirurgia
Depois de uma estapedotomia, que é a técnica mais usada hoje, viajar de avião comercial é seguro mesmo pouco tempo depois da alta, desde que a sua tuba auditiva funcione bem e o ouvido consiga equalizar a pressão [1]. A recomendação antiga de esperar três meses para voar não se sustenta na literatura atual [1].
Há duas observações importantes. A primeira é que, quando a técnica usada foi a estapedectomia (a forma mais antiga, com remoção maior da platina), costuma-se recomendar evitar voar por cerca de duas semanas, para o selo de tecido cicatrizar [1]. A segunda é sobre a descida do avião, o momento em que a pressão muda mais. Vale fazer uma manobra de Valsalva suave, tampando o nariz e soprando com delicadeza, a cada poucos minutos durante a descida, sempre suave, nunca com força, porque uma manobra exagerada pode deslocar a prótese [1]. Na dúvida sobre qual técnica foi usada no seu caso e quando você pode voar, pergunte na consulta de controle.
A prótese de estribo e a ressonância magnética
As próteses modernas de estribo são seguras para a ressonância magnética. Uma revisão dos estudos sobre o tema concluiu que as próteses colocadas a partir de 1987 não representam risco quando expostas aos campos magnéticos dos aparelhos de ressonância [2]. Ou seja, ter feito a cirurgia do estribo não impede você de fazer uma ressonância quando precisar.
Existe uma única exceção histórica. Um pequeno grupo de pacientes recebeu, nos anos 1980, uma prótese de aço inoxidável que tinha propriedade magnética; esse modelo foi recolhido e está fora de uso desde 1987, e quem o tenha recebido naquela época pode, por precaução, ser orientado a fazer o exame em aparelho de 1,5 tesla [2]. Para as próteses atuais, isso não se aplica.
Aqui entra uma orientação prática, e respondo a uma dúvida que recebo com frequência, a de quem fez a cirurgia e quer saber se deve guardar algum documento sobre o que foi colocado. Sim, guarde. Peça e guarde o cartão ou o documento da sua prótese, com o modelo e o material, e informe a equipe da ressonância antes do exame. Não é porque a prótese ofereça risco, é simplesmente para que a equipe saiba exatamente o que você tem e conduza o exame com a informação certa em mãos.
Sensações comuns e os sinais de alarme
Sensações no ouvido operado são comuns nas primeiras semanas e, na grande maioria das vezes, fazem parte da recuperação normal. Ouvido tampado, leve latejamento, estalos, sensação de pressão e, às vezes, a sensação de que o ouvido esquenta de vez em quando, costumam ser benignas e tendem a diminuir conforme a cicatrização avança. Um pouco de tontura nos primeiros dias também é frequente após a cirurgia do estribo, e costuma ceder rápido. Sintomas no ouvido interno aparecem em cerca de 70% dos pacientes na primeira semana, e a tontura mais tardia, que persiste, é incomum, em torno de 5% a 8% dos casos [4].
A diferença que importa é entre essas sensações leves e passageiras e os sinais de alarme. Alguns sintomas fogem do esperado e pedem contato imediato com a equipe, em vez de esperar a próxima consulta. São vertigem intensa e que não passa, piora súbita ou perda da audição no ouvido operado, febre, secreção com mau cheiro saindo do ouvido e fraqueza ou desvio de um lado do rosto. Entre uma tontura leve, que melhora dia após dia, e uma vertigem intensa e persistente, que não cede, é esta última, assim como os outros sinais acima, que merece avaliação sem demora. Os riscos da cirurgia, com os números, estão detalhados na página sobre riscos e medos da cirurgia.
Chamada
Se você vai operar e quer entender o pós-operatório com antecedência, ou já operou e tem dúvidas sobre a sua recuperação, é possível conversar numa consulta on-line. A teleconsulta é complementar ao acompanhamento presencial. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.
Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25)
- Akhal T, Bassim M. Flight After Stapes Surgery: An Evidence-Based Recommendation. OTO Open. 2023;7(3):e65. PMC10354503
- Daher GS, Kocharyan A, Carlson ML, et al. MRI Safety of Stapes Prostheses: A Systematic Review. Otol Neurotol. 2024;45(5):469-474. PMID 38518765
- Toscano ML, Matz O, Hohman MH, Shermetaro C. Stapes Surgery for Otosclerosis. StatPearls, 2026. NBK562205
- Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, et al. Brazilian Society of Otology task force — Otosclerosis: evaluation and treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(5):101303. PMC10474207