Otosclerose Dr. Luciano Moreira · Equipe SONORA

4 — A cirurgia

Riscos da cirurgia de otosclerose e o medo de operar

Resposta rápida

A cirurgia da otosclerose é um procedimento delicado, feito num espaço de poucos milímetros, e como toda cirurgia tem riscos. Os principais são a piora da audição do ouvido operado, que numa cirurgia primária fica abaixo de 1% [1], a tontura nos primeiros dias [2], a alteração do paladar [1] e, muito mais rara, a lesão de outras estruturas próximas. A paralisia facial é uma complicação muito rara. Em parte dos casos pode ser preciso uma segunda cirurgia ao longo da vida [3]. Nenhum número garante resultado individual, e por isso a decisão de operar precisa ser tomada com informação clara e no seu tempo.

Uma cirurgia delicada, não uma cirurgia de alto risco de vida

A cirurgia da otosclerose é delicada, não uma cirurgia de alto risco de vida. Ela é feita pelo conduto auditivo, sem corte externo, e trabalha sobre o estribo, um ossículo de poucos milímetros, ao lado de estruturas importantes do ouvido. O risco que mais assusta, o de a audição piorar em vez de melhorar, existe, mas é pouco frequente numa cirurgia primária bem indicada [1]. O medo de "dar errado" é legítimo, e o caminho para lidar com ele não é minimizá-lo, é entender exatamente o que pode acontecer.

A técnica moderna mais usada hoje é a estapedotomia, em que se faz uma pequena abertura na platina do estribo e se coloca uma prótese, e que é o nome técnico daquilo que muita gente ainda chama de estapedectomia [1]. Um ponto importante, demonstrado na literatura, é que a experiência do cirurgião pesa mais no sucesso e na segurança do que a técnica específica escolhida [1]. Entenda o procedimento em detalhe na página sobre a cirurgia de otosclerose.

Os riscos têm nome, frequência e, quase sempre, solução

Decide-se melhor sobre o que se entende, e por isso vale conhecer cada risco pelo nome. O objetivo da cirurgia é fechar o gap aéreo-ósseo, a distância entre o que se ouve pelo ar e pelo osso, e a literatura descreve esse fechamento em torno de 90% das cirurgias primárias, com taxa de perda neurossensorial abaixo de 1% [1]. Esses números são da literatura, não uma promessa para o seu caso.

O risco mais sério é a perda neurossensorial, a piora da audição do próprio ouvido operado, que numa cirurgia primária ocorre em menos de 1% dos casos [1]. A forma mais grave, a perda profunda ou "ouvido morto", é ainda mais incomum [1]. A tontura ou vertigem é comum nos primeiros dias, porque a cirurgia mexe num ouvido que também é responsável pelo equilíbrio, e tende a ceder com o tempo [2]. A alteração do paladar, com gosto metálico ou amargo de um lado da língua, acontece quando o nervo do paladar que passa rente ao tímpano, a corda do tímpano, é tocado durante a cirurgia [1]. Pode haver ainda uma pequena perfuração do tímpano, em geral tratada no mesmo ato [1], e, raramente, uma fístula, um pequeno vazamento de líquido do ouvido interno que não selou [1]. Outra complicação possível, muito rara, é a lesão do nervo facial, que corre vizinho ao campo da cirurgia.

O risco que mais pesa na decisão, a audição do ouvido operado

Existe o risco de a audição do ouvido operado piorar em vez de melhorar, e é ele que mais pesa na decisão, embora seja pouco frequente. A perda neurossensorial, isto é, a piora da audição do próprio ouvido operado, ocorre em menos de 1% das cirurgias primárias, e a perda profunda, o chamado "ouvido morto", é ainda mais rara [1]. Justamente por esse risco existir, opera-se primeiro o ouvido que ouve pior, e o segundo ouvido só é considerado mais tarde, em geral alguns meses depois, se de fato tiver passado a ser o pior [1].

É importante separar duas coisas. A otosclerose é uma doença progressiva, e a parte neurossensorial da perda não é corrigida pela cirurgia, porque a cirurgia trata a parte mecânica, o estribo travado [1]. Ou seja, a audição pode continuar mudando ao longo dos anos pela própria doença ou pela idade, e isso não é a mesma coisa que uma complicação cirúrgica. Quando a prioridade passa a ser não arriscar a reserva que ainda existe, preservar a audição que resta e usar um aparelho pode ser preferível a operar [1]. Essa conversa entre operar e usar aparelho tem uma página própria, veja operar ou usar aparelho.

Tontura nos primeiros dias, o esperado e o que merece avaliação

Sentir alguma tontura nos primeiros dias é esperado, e não é sinal de que algo deu errado. O ouvido interno comanda também o equilíbrio, e mexer no estribo, vizinho do labirinto, costuma provocar sintomas vestibulares na primeira semana em boa parte dos pacientes [2]. Essa tontura precoce em geral cede nos primeiros dias [2]. Há diferença entre as técnicas, a tontura costuma durar menos depois da estapedotomia do que depois da estapedectomia mais antiga [2].

Uma tontura que persiste, é forte ou aparece mais tarde merece avaliação, porque a vertigem tardia é menos comum, descrita em torno de 5% a 8% dos casos [2], e pode indicar, por exemplo, uma prótese mais longa do que o necessário tocando estruturas internas [1]. O que se orienta no pós-operatório, como evitar esforço, não assoar o nariz com força e não fazer manobras bruscas de pressão nos primeiros dias, existe em boa parte para não deslocar a prótese e justamente para reduzir esse tipo de sintoma. Os detalhes da recuperação estão na página sobre o pós-operatório.

O gosto metálico na boca e a corda do tímpano

O gosto metálico que alguns pacientes notam vem de um nervo fino do paladar, a corda do tímpano, que passa exatamente por dentro do ouvido médio, rente ao tímpano, no caminho da cirurgia. Quando ele precisa ser afastado ou tocado para se chegar ao estribo, pode surgir alteração do paladar, em geral um gosto metálico ou amargo em metade da língua, do lado operado [1]. Na maioria das vezes esse incômodo melhora ao longo das semanas, e costuma ser passageiro. Curiosamente, quando o nervo precisa ser totalmente seccionado, os pacientes tendem a relatar menos alteração do paladar do que quando ele é apenas parcialmente lesado [1].

A técnica influencia esse ponto. A abordagem endoscópica está associada a um menor índice de alteração do paladar do que a microscópica, com resultado auditivo equivalente [4]. Vale lembrar também que, por ser feita por dentro do ouvido e sem corte externo, a cirurgia costuma ter pouca dor no pós-operatório, e a abordagem endoscópica aparece associada a um escore de dor menor do que a microscópica [4]. Falo mais sobre isso na página da cirurgia endoscópica.

A paralisia facial, uma complicação muito rara

A paralisia facial é uma complicação muito rara da cirurgia de otosclerose, e é uma das que mais assustam quando se lê sobre o procedimento. O nervo facial corre muito perto do campo da cirurgia, e em alguns casos ele está numa posição mais exposta do que o habitual, o que o cirurgião identifica e contorna durante o ato [1]. Em situações em que o nervo está tão deslocado que cobre a área a ser operada, a conduta mais segura pode ser interromper a cirurgia, em vez de insistir e arriscar [1]. Preservar o nervo vale mais do que completar o procedimento a qualquer custo.

Comparando as técnicas, o risco de lesão do nervo facial é semelhante entre a estapedotomia endoscópica e a microscópica, sem diferença significativa entre elas [4]. É um risco que se conversa abertamente antes de qualquer cirurgia do estribo, e que se maneja com anatomia, paciência e o bom senso de saber a hora de parar.

Quando é preciso reoperar, e por quê

Pode acontecer de a cirurgia não fechar o gap como o esperado, ou de a audição que melhorou voltar a cair com o tempo, e nesses casos uma segunda cirurgia, a revisão, pode ser indicada. A literatura descreve a necessidade de revisão em torno de 20% ao longo da vida, dependendo da casuística, independentemente da técnica usada na primeira cirurgia [3]. Outras séries trazem taxas de revisão menores, na faixa de 2,5% a 13% [2]. A causa mais comum, de longe, é o mau funcionamento da prótese, em geral por deslocamento dela da posição correta, que responde por boa parte das revisões [3]. A segunda causa é a erosão da bigorna, o ossículo onde a prótese se apoia [3]. Juntos, deslocamento e erosão explicam a grande maioria dos casos [3]. Um comprimento inadequado da prótese, o que os pacientes às vezes descrevem como "prótese curta", também aparece com frequência quando se reabre o ouvido na revisão [3].

A cirurgia de revisão é mais difícil do que a primeira. O fechamento do gap na revisão é menor, descrito entre 45% e 71% mesmo nas mãos mais experientes, e o risco de "ouvido morto" é um pouco maior, em torno de 2% [3]. Por isso a decisão de reoperar é sempre individual e cuidadosa. Vale não confundir dois números diferentes, a chance de precisar de uma revisão ao longo da vida e a chance de essa revisão fechar o gap, que é menor do que na primeira cirurgia. A taxa de sucesso da primeira cirurgia está na página sobre a cirurgia da otosclerose.

Se a cirurgia não resolver, ainda há caminhos

Quando a cirurgia não resolve, ou não pode ser feita com segurança, há caminhos, e nenhum deles é o silêncio. O primeiro é o aparelho auditivo, uma alternativa válida sempre que operar não é seguro ou não trouxe o ganho esperado, e preservar a audição que ainda existe vale mais do que arriscar uma perda profunda [1]. O segundo é a revisão cirúrgica, quando a causa é mecânica e tratável, como uma prótese deslocada [3]. E quando a otosclerose avançou muito, a ponto de levar a uma surdez profunda, com a parte neurossensorial muito comprometida, o caminho passa a ser o implante coclear, avaliado com exames de imagem para checar a cóclea [2]. Esse cenário tem uma página própria, veja otosclerose avançada e implante coclear.

Como lidar com o medo de operar

O medo de operar o ouvido é compreensível, porque a audição é parte de como você trabalha, conversa e vive, e a ideia de "dar errado" pesa. O que ajuda não é coragem, é informação. Entender o que pode acontecer, com que frequência, e o que se faz em cada situação, costuma transformar um medo difuso numa decisão consciente. Você tem o direito de fazer todas as perguntas, de pedir uma segunda opinião e de não decidir na primeira conversa.

Algumas preocupações são muito concretas. Quem depende da audição fina para trabalhar, como músicos, costuma temer não poder mais exercer a profissão. É uma preocupação legítima, e a cirurgia tem riscos e benefícios que precisam ser pesados caso a caso, sem que eu prometa um resultado. Justamente por isso a indicação é individual, a conversa é aberta e a decisão é sempre sua, no seu tempo. Se ajudar, é possível revisar os seus exames e conversar sobre o seu caso numa consulta on-line antes de qualquer decisão.

Chamada

Se você tem medo de operar, ou quer entender os riscos reais no seu caso antes de decidir, é possível revisar os seus exames e conversar comigo numa consulta on-line. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.


Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25)

  1. Toscano ML, Matz O, Hohman MH, Shermetaro C. Stapes Surgery for Otosclerosis. StatPearls, 2026. NBK562205
  2. Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, et al. Brazilian Society of Otology task force — Otosclerosis: evaluation and treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(5):101303. PMC10474207
  3. Sakano H, Harris JP. Revision Stapes Surgery. Curr Otorhinolaryngol Rep. 2022;10(1):40-48. PMC9533914
  4. Albazee E, Alajmi H, Aldoukhi A, Alali AW. Endoscopic Versus Microscopic Stapedotomy: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Otolaryngol Head Neck Surg. 2025;172(4):1164-1176. PMID 39749405
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