3 — A decisão
Remédio para otosclerose? Fluoreto e alendronato
Resposta rápida
Não existe remédio que cure a otosclerose nem que comprovadamente trave a sua progressão como tratamento de rotina [1][2]. Dois fármacos já foram tentados, o fluoreto de sódio e os bifosfonados, classe que inclui o alendronato, mas a evidência é fraca e nenhum deles tem indicação de uso de rotina [1]. O fluoreto de sódio, hoje, tem sobretudo valor histórico, e o seu uso crônico traz efeitos adversos sérios [1]. Os bifosfonados são usados fora de bula, o chamado off-label, com evidência insuficiente para recomendar o uso de rotina [3][4]. Na prática, o tratamento medicamentoso da otosclerose tem, na maioria das vezes, uma relação risco-benefício desfavorável. O que de fato muda o curso da audição é acompanhar a doença e tratar a fase certa, com aparelho ou cirurgia.
Não existe remédio que cure nem que comprovadamente trave a otosclerose
Não há nenhum medicamento que cure a otosclerose ou que reverta os focos da doença [2]. O objetivo do tratamento medicamentoso, quando tentado, nunca foi curar, e sim tentar frear ou estabilizar a progressão, sobretudo do componente do ouvido interno [2]. E mesmo para isso a evidência é fraca. A diretriz da Sociedade Brasileira de Otologia conclui que o tratamento medicamentoso mostrou pouco benefício [1].
Não há, hoje, um fármaco que comprovadamente segure o avanço da otosclerose a ponto de justificar o uso de rotina [1]. As tentativas existentes têm evidência fraca e riscos que pesam na balança. A base do cuidado, portanto, não está no remédio, e sim no acompanhamento da doença ao longo do tempo. Veja o panorama das rotas na página sobre o tratamento da otosclerose.
O fluoreto de sódio, hoje, tem sobretudo valor histórico
O fluoreto de sódio foi usado por décadas para tentar estabilizar a otosclerose, mas a evidência a favor dele é de baixa qualidade [5]. Existe um único ensaio duplo-cego controlado por placebo, que sugeriu menor piora da audição após dois anos no grupo tratado, e algumas séries de casos descrevem benefício, mas as doses variam muito e não há evidência sobre a duração ideal do tratamento [5].
Some-se a isso o problema dos efeitos adversos. O uso crônico de fluoreto de sódio, por mais de seis meses, está associado a efeitos colaterais renais, hepáticos e cardiovasculares sérios, e relatos de alterações ósseas, como a disostose, não são incomuns [1]. Por essas razões, a diretriz brasileira afirma que o seu uso não é recomendado, e que ele tem hoje, sobretudo, valor histórico [1].
O alendronato e os bifosfonados, usados fora de bula e com riscos reais
Os bifosfonados, classe que inclui o alendronato, o risedronato, o zoledronato e o etidronato, são medicamentos do tratamento da osteoporose que foram estudados na otosclerose de forma off-label, ou seja, fora da indicação aprovada [3]. A ideia era reduzir a atividade óssea da doença e, sobretudo, aliviar sintomas como zumbido e tontura [3]. Os estudos mostram, no máximo, uma possível estabilização da perda do tipo neurossensorial em grupos pequenos, sem melhora da audição, e uma revisão sistemática conclui que não há evidência suficiente para recomendar o uso de rotina dos bifosfonados na otosclerose [4]. Vale lembrar que o componente condutivo da perda pode ser corrigido com a cirurgia, e não por remédio [3].
Os riscos dos bifosfonados pesam na balança
Aos limites de eficácia somam-se os riscos. Os bifosfonados têm efeitos adversos conhecidos, descritos sobretudo no uso para a osteoporose. Entre eles estão dor articular e muscular, irritação e úlcera do esôfago quando tomados por via oral, dano renal, queda do cálcio no sangue e, mais raramente, osteonecrose da mandíbula e fraturas atípicas do fêmur [3]. Na aplicação intravenosa, até cerca de 20% das pessoas têm uma reação de fase aguda, com febre, fraqueza e dor óssea e muscular [3]. São medicamentos com meia-vida longa no osso, e que devem ser usados com cautela em mulheres em idade fértil, porque atravessam a placenta [3]. É por isso que entram com tanta reserva numa doença que, em geral, tem caminhos melhores.
O "tratamento natural" da otosclerose não existe
Chá, suplemento ou método caseiro que cure ou estabilize a otosclerose simplesmente não existe. Desconfie de qualquer promessa nesse sentido. O que de fato muda o curso da audição na otosclerose é acompanhar a doença e tratar a fase certa, com aparelho auditivo ou com cirurgia, e não com remédio nem com receita caseira. O ritmo da doença está detalhado na página sobre o prognóstico da otosclerose.
Na gravidez, a conduta segura é não usar esses remédios
Tanto o fluoreto de sódio quanto os bifosfonados não devem ser usados na gravidez. O fluoreto de sódio é contraindicado na gestação por efeitos adversos sobre o feto [6], e os bifosfonados exigem cautela em mulheres em idade fértil, porque têm meia-vida longa no osso e atravessam a placenta [3]. Como o tratamento medicamentoso já tem pouco a oferecer na otosclerose, na gestação a conduta segura é não usar esses fármacos. O manejo da otosclerose na gravidez, com o que pode e o que não pode, está na página sobre otosclerose na gravidez.
Chamada
Se você está tomando ou pensando em tomar algum remédio por causa da otosclerose, ou quer entender o que realmente muda o curso da doença, é possível conversar sobre o seu caso numa consulta on-line, complementar ao atendimento presencial. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.
Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25; detalhe em pesquisa/14)
- Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, et al. Brazilian Society of Otology task force — Otosclerosis: evaluation and treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(5):101303. PMC10474207
- Hohman MH, Khan MAB. Otosclerosis. StatPearls, 2024. NBK560671
- Quesnel AM, Seton M, Merchant SN, Halpin C, McKenna MJ. Third-generation bisphosphonates for treatment of sensorineural hearing loss in otosclerosis. Otol Neurotol. 2012;33(8):1308-14. PMC3442123
- Patel S, Walters B, Eastwood M, et al. A Systematic Review of the Effectiveness of Bisphosphonates for Otosclerosis. Otol Neurotol. 2022;43(5):530-537. PMID 35213475
- Cruise AS, Singh A, Quiney RE. Sodium fluoride in otosclerosis treatment: review. J Laryngol Otol. 2010;124(6):583-6. PMID 20163750
- Shiny Sherlie V, Varghese A. ENT Changes of Pregnancy and Its Management. Indian J Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;66(Suppl 1):6-9. PMC3918343