3 — A decisão (situações especiais)
Otosclerose na gravidez, piora mesmo? O que diz
Resposta rápida
A ideia de que a gravidez piora a otosclerose é mais antiga do que sólida. As evidências se dividem. Uma meta-análise de 2022 descreveu alguma mudança auditiva ligada à gravidez em cerca de 44% das mulheres [1], mas os estudos populacionais mais recentes e bem controlados não sustentam esse agravamento, e a diretriz da Sociedade Brasileira de Otologia afirma, com recomendação forte, que não há evidência de que a gravidez ou o anticoncepcional aumentem o risco de desenvolver ou de piorar a otosclerose [2]. Na prática, você pode engravidar. As restrições são de calendário, na gestação não se faz tomografia nem cirurgia. Se precisar ouvir melhor grávida, o aparelho auditivo é o caminho seguro. A cirurgia, quando indicada, fica para alguns meses depois do parto. E quem já operou pode engravidar com tranquilidade.
A gravidez piora a otosclerose?
A ciência ainda discute isso, mas a balança da melhor evidência recente pesa contra a velha ideia de que a gravidez piora a otosclerose. De um lado, a literatura clássica e uma meta-análise de 2022, que reuniu 11 estudos e 2.323 mulheres, descreveram alguma mudança auditiva durante a gestação em cerca de 44% das mulheres, com piora em 21% durante a gravidez e início dos sintomas na gestação em 1% [1]. Os próprios autores, porém, ressaltam a grande heterogeneidade dos dados e dizem que não foi possível formular afirmações absolutas [1]. De outro lado, os estudos populacionais controlados questionam o nexo causal. Um estudo caso-controle não encontrou associação entre ter tido pelo menos um parto e desenvolver otosclerose, com odds ratio de 1,16, sem significância estatística, e a remoção dos ovários também não reduziu o risco [3]. E a diretriz da Sociedade Brasileira de Otologia conclui, com recomendação forte e evidência de alta qualidade, que não há evidência de que a gravidez ou o uso de anticoncepcional aumentem o risco de desenvolver ou de piorar a otosclerose [2].
| O que diz a evidência | Achado | Fonte |
|---|---|---|
| Meta-análise (visão clássica) | Mudança auditiva ligada à gravidez em ~44%; piora em 21% durante a gestação | Fabbris, 2022 [1] |
| Estudo caso-controle | Ter ao menos um parto não se associou a desenvolver otosclerose (OR 1,16, sem significância) | Macielak, 2021 [3] |
| Coorte de 6.025 operados | Mães e pais operam igualmente mais cedo, o que aponta fator social, não hormonal | Qian e Alyono, 2020 [4] |
| Diretriz brasileira (SBO) | Sem evidência de que gravidez ou anticoncepcional aumentem ou piorem a otosclerose (recomendação forte) | SBO, 2023 [2] |
| Exposição a estrogênio | Estradiol associado a menor risco de desenvolver otosclerose (papel protetor) | Smith, 2026 [5] |
Se a gravidez não é a culpada, por que tanta gente associa as duas coisas? Porque a vida muda muito nesse período, e a memória costuma amarrar a perda auditiva ao parto. Há um dado especialmente esclarecedor. Um estudo com mais de 6 mil pessoas operadas do estribo mostrou que mulheres com filhos operam mais cedo do que mulheres sem filhos, em média aos 39 contra 50 anos [4]. Se a explicação fosse hormonal, deveríamos esperar que só as mulheres operassem mais cedo. Mas os homens com filhos também operam mais cedo do que os homens sem filhos, na mesma proporção, cerca de 40 contra 51 anos [4]. E por nenhum pai passou hormônio de gravidez. O que antecipa o tratamento, então, não é a gestação, é a vida de quem cria um filho, mais cheia, mais barulhenta e com mais contato com o sistema de saúde [4]. O suposto agravamento pela gravidez parece ser, em boa parte, esse efeito social somado à memória que ancora a surdez ao parto.
Engravidar com otosclerose, e o papel dos hormônios
Quem tem otosclerose pode engravidar, e a doença não deveria pesar nessa decisão. Ela não impede a gravidez e tem tratamento para cada fase. As únicas restrições são de calendário, e dizem respeito a não fazer tomografia nem cirurgia durante a gravidez, não a evitar a gestação. Se a sua audição incomodar nesse período, há um caminho seguro, que é o aparelho auditivo.
O medo dos hormônios costuma vir junto, e também não se sustenta na evidência atual. Não há evidência de que o anticoncepcional piore a otosclerose, e a diretriz da Sociedade Brasileira de Otologia coloca a gravidez e o anticoncepcional no mesmo veredito, não há sinal de que aumentem o risco de desenvolver ou de piorar a doença [2]. Quanto à reposição hormonal, um estudo recente observou que a exposição ao estrogênio, na forma de estradiol, se associou a um risco menor de desenvolver otosclerose, sugerindo um papel protetor do estrogênio, e não o contrário [5]. Ou seja, a velha ideia de que o hormônio feminino piora a otosclerose não encontra respaldo nos dados modernos. O predomínio da doença em mulheres e o porquê de a antiga explicação hormonal não se sustentar estão detalhados na página sobre as causas da otosclerose.
Tratar a otosclerose durante a gestação
A cirurgia do estribo não se faz durante a gravidez. Ela é um procedimento eletivo, ou seja, não urgente, e pede anestesia e uma manipulação delicada do ouvido interno que não há razão para arriscar enquanto se espera um bebê [6]. A tomografia, que faz parte do planejamento, também usa radiação e é evitada na gestação. Por isso a conduta é adiar a cirurgia para depois do parto [6]. Se a audição incomodar no intervalo, o aparelho auditivo resolve a parte prática, sem risco para o bebê.
Os remédios também não são opção nesse período, e na otosclerose eles já têm pouco a oferecer de qualquer forma. O fluoreto de sódio é contraindicado na gestação por efeitos adversos sobre o feto [6], e os bifosfonados exigem cautela em mulheres em idade fértil, porque têm meia-vida longa no osso e atravessam a placenta [7]. Por precaução, também se evitam esses fármacos durante a amamentação. A conversa completa sobre eles, e por que entram com tanta reserva, está na página sobre remédio para otosclerose.
Depois do parto, a cirurgia e o calendário
Algumas mulheres relatam uma variação leve da audição na gravidez, e quando há essa flutuação vale reavaliar com calma depois do parto. Como na gestação o diagnóstico se apoia na história e na audiometria, sem tomografia, a reavaliação no pós-parto ajuda a separar o que foi uma flutuação passageira do que é a otosclerose em si. O que persiste e merece avaliação é a perda que não volta.
Quem já operou pode engravidar com tranquilidade, sem que isso comprometa, na grande maioria dos casos, o resultado já alcançado. Depois da estapedotomia, a prótese substitui o estribo na cadeia de ossículos, e a progressão da doença no foco da otosclerose não costuma comprometer o resultado mecânico já obtido, ainda que a audição possa mudar ao longo da vida pela própria doença ou pela idade, como em qualquer pessoa operada. Por isso, planejar mais filhos não é, por si só, motivo para adiar a cirurgia, e a antiga orientação de esperar terminar de ter filhos para operar não se sustenta. O que muda, ou não, o resultado da cirurgia ao longo do tempo está na página sobre a cirurgia da otosclerose.
O parto também não precisa girar em torno da otosclerose. A doença não contraindica o parto vaginal nem exige uma conduta obstétrica especial, e o esforço do parto não é uma causa estabelecida de piora da perda auditiva. A via de parto é uma decisão obstétrica.
No fim, a ordem prática se resume a uma ideia simples. Não adie a gravidez por causa da otosclerose, porque a evidência atual não sustenta que a gestação piore a doença [2] e a maternidade não deve se curvar a uma doença que tem tratamento. Quanto à cirurgia, se você está grávida e há indicação cirúrgica, adia-se a cirurgia para depois do parto, em geral a partir de alguns meses, quando o corpo já se recuperou da gestação [6]. E se você ainda pretende ter filhos mas tem indicação de operar, isso não é motivo para esperar, porque a cirurgia não atrapalha futuras gestações nem é desfeita por elas. Cada caso merece uma conversa individual, sem pressa e sem medo.
Chamada
Se você tem otosclerose e dúvidas sobre engravidar, operar ou tratar com segurança na gestação, é possível conversar sobre o seu caso numa consulta on-line, complementar ao atendimento presencial. Saiba como funciona a avaliação à distância ou agende a sua consulta.
Referências (verificadas na fonte primária — 2026-06-25; detalhe em pesquisa/14)
- Fabbris C, Molteni G, Tommasi N, Marchioni D. Does pregnancy have an influence on otosclerosis? J Laryngol Otol. 2022;136(3):191-196. PMID 34819176
- Silva VAR, Pauna HF, Lavinsky J, et al. Brazilian Society of Otology task force — Otosclerosis: evaluation and treatment. Braz J Otorhinolaryngol. 2023;89(5):101303. PMC10474207
- Macielak RJ, Marinelli JP, Totten DJ, et al. Pregnancy, Estrogen Exposure, and the Development of Otosclerosis: A Case-Control Study of 1196 Women. Otolaryngol Head Neck Surg. 2021;164(6):1294-1298. PMC8076328
- Qian ZJ, Alyono JC. Effects of Pregnancy on Otosclerosis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;162(4):544-547. PMC7278075
- Smith M, Iyer S, Clark DES, Warren S, McKinnon B. Estrogen Exposure is Associated With Reduced Otosclerosis Risk in Obesity and Hormone Therapy. Otol Neurotol Open. 2026;6(1):e083. PMC13012311
- Shiny Sherlie V, Varghese A. ENT Changes of Pregnancy and Its Management. Indian J Otolaryngol Head Neck Surg. 2014;66(Suppl 1):6-9. PMC3918343
- Quesnel AM, Seton M, Merchant SN, Halpin C, McKenna MJ. Third-generation bisphosphonates for treatment of sensorineural hearing loss in otosclerosis. Otol Neurotol. 2012;33(8):1308-14. PMC3442123